George Balandier: Teatrocracia e Ritualização do Conflito

O Poder exerce-se não só de forma aberta mas também de forma mais discreta e subtil. Balandier vai tentar perceber como é que o poder recebe a sua legitimação a partir de aspectos que estão ligados ao simbólico.

Na sua obra "O Poder em Cena", Balandier não se detém em definições exaustivas dos conceitos relacionados com o poder. Ele ilustra aquelas situações em que o poder se transforma e sofre uma metamorfose.

Na sua essência o poder é sempre uma relação de forças desiguais, mas o poder transforma-se, transfigura-se. Podemos ver-nos envolvidos em relações de poder das quais não nos apercebemos destas relações de força. Balandier vai falar exactamente desta ocultação do poder. Assim ele afirma que todas as formas de poder que se exercem nas instituições - tais como no estado, igreja, instituições económicas - são uma acção encenada, representada no sentido teatrático. É uma acção ostensiva recheada de manifestações excessivas e supérfluas.
Por exemplo, no parlamento há toda uma encenação ideológica, há um código de conduta de que faz parte a retórica, o saber falar, a ordem e a agressividade discursiva. Pensemos na forma teatral do parlamento, é um anfiteatro, um palco, onde todas as decisões são tomadas.

O poder político é sempre uma teatrocracia, é o poder que se exerce com uma caracterização dramática. Qualquer regime político é uma teatrocracia na procura de legitimação. Qualquer poder que se exerça através da força é débil pois dispensa a legitimação, dispensa ser reconhecido pelos dominados. Este tipo de poder pela força irá sempre encontrar uma força maior de revolta, de insubordinação. Assim, para que o poder se exerça de forma duradoura é preciso vesti-lo de outra forma, transformá-lo, dar-lhe uma aparência diferente daquilo que realmente é na sua essência. Desta forma pretende-se conseguir o reconhecimento dos dominados através da sua adesão emocional, mais do que a sua adesão racional. Ora se partirmos desta ideia, todos os regimes políticos são teatrocráticos onde os políticos são actores a tempo inteiro e dão vida a um espetáculo.

O poder capaz de se efectuar é legitimado, a obediência assenta na adesão emocional que é estimulada nas cerimónias, nas dramatizações, nos espectáculos, na sacralização dos símbolos e nos agentes do poder no interior da efervescência social.

Assim o que Balandier pretende mostrar é que nenhum regime pode manter-se se não for capaz de se representar como algo diferente daquilo que é na essência. O que define o poder é a força, mas se o poder é exclusivamente força então ele torna-se vulnerável, porque o dominados não aceitam passivamente uma dominação que seja brutal e sem justificação. Neste tipo de poder não há legitimidade e por fim acaba por ser frágil. A teatrocracia é uma encenação que mostra o poder com uma nova aparência distinta da essência. Para que o poder seja percebido diferentemente daquilo que é, para que seja aceite e legitimado, há que fazer um grande dispêndio de energia por parte da classe dirigente de forma a mostrar-se diferente.

2 comentários:

Lusofonia Horizontal disse...

Parabéns pelo blog! Continuem!

AiÉ? disse...

Muito bom! Obrigada!

Enviar um comentário

 
subir