A organização e seus paradigmas

A organização e a pluralidade de abordagens

Há todo um conjunto de abordagens pluridisciplinares. A organização só se entende na sua globalidade. A pluralidade das abordagens tem que ver com a pluralidade das disciplinas que estudam as organizações – direito administrativo, direito comercial, direito do trabalho, psicologia social, economia, gestão, engenharia humana, há todo um conjunto de abordagens disciplinares no estudo das organizações.

A organização e os diferentes paradigmas

A noção de paradigma: Quando é que uma ciência se chama de pluri-paradigmática? Quando fazem apelo a várias perspectivas teóricas fundamentais, não tem portanto só uma perspectiva. A matemática é uma ciência mono-paradigmática. O que é um paradigma? Paradigma em ciências da epistemologia do conhecimento é uma grande teoria de visão do mundo. O paradigma tem três níveis fundamentais:

1. É um conjunto de crenças, um sistema global de explicação, um determinado sistema de valores. A explicação que o mundo ocidental dá ao mundo é diferente da explicação oriental. O pensamento medieval articulava uma determinada forma de política, pintura, etc. É através dos paradigmas que articulamos os nossos saberes. Exemplos: paradigma marxista da explicação do ser humano e da sociedade; paradigma da Grécia clássica com Platão e Sócrates.
2. É um desenvolvimento científico universal conhecido e aceite pela comunidade cientifica num dado momento da historia. O conhecimento vai-se desenvolvendo, aprofundando, vão surgindo novas verdades. É portanto um conjunto de teorias provisórias que num dado momento é aceite a partir das quais construímos a nossa investigação. A ciência são proposições reformuláveis.
3. Tem a ver com um conjunto de hipóteses instrumentais que utilizamos na nossa investigação, hipóteses que constituem a nossa problemática.


As nossas ciências humanas são ciências com multi-paradigmas


A) Paradigma estruturo – funcionalista: Parsons perspectiva o estudo das organizações a partir do modelo orgânico onde existe o princípio da ordem e da harmonia, tudo funciona de forma regulada. É privilegiada a ideia de ordem, de adequação dos meios aos fins, ideia de integração. A organização é vista como uma realidade sem história, como um instrumento em ordens aos fins. A organização é vista como orgânica e formal, é um sistema a-histórico, é uma comunidade de interesses, todos unificados a trabalhar para os mesmos fins, do interesse comum.
Ora a organização não é uma comunidade de interesses, nem as escolas ou universidades, toda a organização é uma estrutura de interesses divergentes (professores/ alunos; patrão/ trabalhador). Aqui não há actores sociais, eles desempenham papéis mas não são actores sociais, os papeis são definidos pela estrutura dos fins, aqui o conflito não é valorizado.

B) Paradigma dialéctico ou crítico: parte do principio oposto, o principio da dialéctica da contrariedade, não da ordem. Este desmonta o funcionamento das organizações, fazendo perceber as contradições na organização. As estruturas sociais são contraditórias e é preciso fazer vir à superfície estas contradições muitas vezes inconscientes da sociedade. Exemplos: toda a teoria marxista é contraditória; toda a tradição da escola de Frankfurt (Marcuse “O Homem Unidimensional” origem do homem na exploração de um pelo outro); toda a tradição anárquica do século XIX não aceita a ordem da sociedade e coloca a pessoa acima de qualquer instituição e não aceita nenhuma dominação de qualquer estrutura. Noção de dialéctica: é um ponto em comum, a conexão dos contrários, a nossa estrutura de pensamento é binário pois fomos todos educados no princípio de identidade e contradição aristotélica, nenhuma realidade pode ser e deixar de ser ao mesmo tempo sob um mesmo aspecto, “ser ou não ser eis a questão”. Ora os orientais contradizem esta lógica. O pensamento dialéctico é a união dos contrários, a gestão de estratégias é a negociação, harmonizando diferentes interesses.
Nesta perspectiva a organização tem as seguintes características: a organização é uma realidade histórica que sofre transformações contínuas e que se inscreve num contexto social. É um instrumento ao mesmo tempo contraditório e convergente, não é uma realidade oposta. Exemplo: o marxismo é antagónico entre capitalismo e comunismo, e nunca conseguiu ver um ponto de união entre as duas organizações, ele queria a destruição total das organizações capitalistas. Assim, a organização é uma estrutura de interesses divergentes mas com um espaço comum, caso contrário ela desintegra-se. A organização mais do que uma estrutura é uma negociação.

C) Paradigma humanista ou personalista: coloca as pessoas como central na sociedade e nas organizações, tudo tem de se subordinar à pessoa humana, ela é hegemónica. As seguintes perspectivas teóricas inspiram-se no humanismo: Escola das relações humanas; Escola do desenvolvimento organizacional.

D) Paradigma construtivista: Os autores fundamentais desta perspectiva são: Piaget - construtivismo genético; Antony Giddens; P. Berger. Nesta perspectiva são os actores que constroem as organizações.
Piaget: perspectiva filosófica do conhecimento humano e social, esta perspectiva foi desde cedo adquirida por ele. Desde cedo se preocupou com a génese das estruturas do conhecimento. Como é que nós assimilamos estas estruturas? Remete para a corrente empirista: tese da “cabeça vazia”, aquilo que conhecemos é através do contacto com o meio exterior. A razão não conhece nada, é o meio que nos desperta a conhecer. A corrente racionalista: defende a tese oposta, as ideias imergem na nossa inteligência de forma quase inata, sem necessitar de catalisadores do exterior. Piaget vai assimilar um ponto intermédio entre estas duas correntes, dizendo que a natureza do nosso conhecimento é uma relação lógica que é assimilada desde criança onde intervêm elementos genéticos e influências catalisadoras do meio exterior. Segundo Piaget a forma estrutural como o sujeito adquire conhecimento determina a estrutura das organizações na sociedade.
Para Durkheim as estruturas eram dominantes sobre o indivíduo, desta forma o indivíduo é pré-determinado, existe assim um constrangimento da consciência colectiva. Weber, parte do principio contrário, diz que são os indivíduos que dão sentido às estruturas que emergem na sociedade. É o indivíduo que identifica as estruturas sociais, que dão estatuto cognitivo enquanto tal. As estruturas lógico-matemáticas, a linguagem, as estruturas de representação simbólica são ao mesmo tempo genético e sociais. Diríamos que as organizações não existem, seriam os actores sociais que as fazem existir dando-lhe estatuto cognitivo. A realidade só existe enquanto ela emerge na minha cabeça como por exemplo a ideia de pai, patrão, estado, pátria. É realidade é genética e social visto já existir, mas foram actores históricos passados que tiveram a capacidade geradora. Os actores são os criadores e portanto os construtores das organizações.

E) Paradigma da complexidade: não se opõe a nenhum dos paradigmas anteriores, mas faz contra-posição com a perspectiva determinista do conhecimento. O determinismo é aquela que mais influenciou inicialmente o conhecimento sociológico, actualmente é contra este determinismo que os sociólogos procuram fazer ruptura. Este pensamento foi determinante no pensamento ocidental, vem dos astros, da astrologia que determina o destino, vem de Deus que determina os nossos destinos. Esta concepção foi dominante até ao renascentismo, mas foi substituída pelo determinismo científico com Descarte e Newton. Taylor baseia-se neste pré-determinismo.
As ciências sociais são ciências enquanto são capazes de prever os fenómenos futuros na sociedade, o que vai acontecer no futuro é resultado do que é hoje no presente que é o resultado do que aconteceu no passado, assim se alguém conhecer cabalmente o presente, o futuro e o passado passam a ser de leitura simples. A refutação deste determinismo cientifico começou com os meteorologistas que algumas vezes previam certos fenómenos que não aconteciam, porque os fenómenos não têm um comportamento linear mas sim paradoxal. Os fenómenos não se inscrevem em causas lineares. Em 1980 os astrónomos destruíram o modelo de Newton do cálculo de posição e movimento dos astros, antes visto como um movimento uniforme é agora visto como não uniforme.
Assim, esta perspectiva da complexidade diz-nos que todos os modelos são de ordem complexa, heterogénea, desta forma tudo é incerto. Devemos portanto reformular constantemente as nossas certezas, é a ideia de variabilidade humana, nós não temos verdades no processo mas sim heterogeneidades. Isto faz com que se valorize os actores e os processos e não as estruturas sociais.

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